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Bate Papo com LOBOS E CHACAIS

  • 27 de fev. de 2017
  • 5 min de leitura

Após a ruptura da Suicide Rocks no final de 2015, o projeto acústico que sobrevive como a primeira formação da Lobos e Chacais passa por diversas metamorfoses. Já em janeiro de 2016, a banda grava o hit “69 formas”, confessando com toda ousadia e embriaguez típica do rock n’ roll e as inúmeras faces do amor. Enfrentando a entrada e saída de diversos membros, a parceria entre Luzbel D’ville (vocal) e Thalis Lavoratti (guitarra e vocal) resistiu, compôs e apresentou cerca de dez músicas acústicas, com estrutura e feeling suficiente para invocar um espírito uivante que estava prestes a se manifestar no som sincero e deveras subversivo tocado pelos atuais quatro integrantes. Às vésperas de sua estréia elétrica no evento Chaos Underwater, o Viva La Cena não perdeu a oportunidade de se fazer presente num ensaio e puxar uma entrevista com os membros.

Preservando acima de tudo uma identidade pouco sintética e de originalidade bastante característica de quem trabalha combinando vários tons de rock, a Lobos e Chacais se prepara para gravar o primeiro ep em casa, no que revela optar tanto pelo simples quanto pelo sofisticado. Thalis (“cria” de Slash e Jimmy Page) explica que seus timbres são regulados pelo sentimento: “quanto mais simples e livre da sobrecarga de efeitos, mais personalidade eu consigo expressar, porque eu prezo pela naturalidade. Isso não exclui de maneira alguma os momentos que pedem por distorções.”

O frontman Luzbel D’ville mais do que canta, escancara o hard rock, o “rock gaúcho”, a melancolia, em energia e letargia, numa intensidade digna das mais sinceras almas do underground: “Na verdade, minhas influências pessoais são colhidas longe do que se ouve no resultado do som. Sou inclinado ao rock sueco e finlandês pela afinidade com a sonoridade bem típica e fria dos vocais. Grandes influências vem do Negative, 69 Eyes, HIM, Crashdiet e não disfarço minha bagagem dos clássicos do hard rock como o próprio Axl Rose. O som que resulta de todas nossas referências ainda é diferente (independente) de todas elas. Quando se referem a um gênero, como rock gaúcho, as pessoas tendem a imaginar um determinado vocal, determinadas letras, timbres e etc, mas, honestamente, as bandas gaúchas de rock n’ roll são tão variadas entre si que esse gênero determinado não passa de um mito.” Já suspeitávamos.

Os novos integrantes são, nada mais nada menos do que pai e filho. Maurício Ramos é quem, dos quatro, tem a maior trajetória na música. O baterista passou por cerca de 15 bandas de rock e lançou disco dentro e fora do brasil, ficando 20 anos na cena antes de sua última banda encerrar as atividades. “Trago experiência de palco, de estúdio, gravação, produção, de composição, construção de arranjos, eu realmente não sou mais guri, porém a turma aqui é muito boa e acredito muito neles. eu bebo muito da visão deles, pra mim estamos juntando a maturidade com a novidade.”

O filho Felipe Ramos, baixista, segue o exemplo e compensa em persistência e disciplina o que o tempo de estrada ainda não oferece. “Passei por vários instrumentos, minha banda não deu certo, fui convidado pela Lobos e influenciado pelo meu pai, que já era membro.” Thalis não poupa elogios. “Não me preparei para me surpreender com uma pessoa que, apesar de iniciante no instrumento, passa uma segurança, uma cadência e uma intimidade com o baixo que eu realmente não esperava de um iniciante. Quando vi ele tocar, era o que eu queria na banda. Ele parece que havia ‘comido’ o baixo por duas semanas. o que amo na Lobos é ter finalmente encontrado membros tão interessados quanto eu em tocar algo de qualidade e sincero, que nos desafia e tem a nossa cara, o esforço e feeling de cada um. Isso é o que procuro pra me sentir completo.”

Apesar da diversidade das histórias e vivências, a banda apresenta uma sincronia de ideologias e objetivos que são canalizados da forma mais inteira possível pela música. Influências existem, mas o desapego aos padrões e mitos do rock n’ roll afirma a identidade original e underground do quarteto.

VIVA LA CENA: o que pretende o som e o trabalho da banda?

LUZBEL: Qual a ideia de vocês? A minha é tocar rock n’ roll,. Com certeza queremos nos divertir pois isso é um prazer, mas somos uma banda que trabalha sério e que não vai perder tempo. A Lobos toca o que é, o que gosta, e se for rentável, ótimo. Pra nós, não existe se encaixar num modelo de rock pra ser mais ou menos comercial porque a ideia é justamente não tentar e não querer ser além do que somos. Se vender, vai ser o que eu sou e o que eu faço, isso quem ouvir, quem for nos shows com certeza vai ver. Nosso som vai estar passando isso da melhor maneira, por isso, não tem ideologia que tente me doutrinar e me pôr uma coleira pra eu ser diferente, ou pra bater de frente com o que eu sou. Vai vencer o mais forte, porque eu sei quem eu sou e o que eu faço, e não aceito os problemas mal resolvidos dos outros que tentarem me forçar. Pode vir quente. VIVA LA CENA: O que é o rock pra lobos e chacais?

THALIS: Não só guitarras e ousadia, na minha opinião o rock é uma expressão direta do que se é, não somente o que remete a putaria, bagunça, bebedeira, enfim o exagero. O problema da pose de rockeiro é esse fingimento, que fica acima do que a pessoa realmente sente. Quem tem uma vida de exagero tem todo direito de se expressar, assim como quem é diferente disso, não é aí que mora o rock, e sim no quanto de sinceridade é passado adiante. As pessoas não são preto e branco, e se a música for, então ela não é honesta, porque todos são mais que preto e branco. Se quer cantar sobre sexo e drogas, ótimo, mas ainda existe o lado sentimental, ansioso, depressivo, feliz, etc. Não existe padronizar o rock n’ roll, e isso causa conflito em pessoas que estão em busca de uma personalidade ao invés de aceitar trabalhar na sua própria. Tentar ser a pose de alguma coisa não é o que eu busco no rock, isso desgasta originalidade, a resistência, a liberdade de pensamento, a independência diante do estabelecido.

VIVA LA CENA: Qual o público alvo da Lobos e Chacais?

THALIS: Já mostrei nosso som pra quem curte reggae, sertanejo, funk, e muitos gostaram, então isso é relativo... Quem sente o som é o público alvo, deu. Nós jamais criaremos restrições, desde que ninguém queira criar conflito. Se quer ir no show, não importa a ideologia, a opinião pessoal, desde de que respeite o trabalho em execução e não crie tumulto.

LUZBEL - É impossível existir um estereótipo para o público da Lobos, pois não há o que se pense, o que se vista, nada que seja pré-requisito para sentir o som da banda. Nosso som vai atrair pessoas que curtem rock n’ roll, pura e simplesmente. O problema hoje é que o fã que gosta de rock não aproveita o momento, fica naquela timidez ou nem sai de casa, porque existe uma expectativa em relação ao show de rock criada por essa história de fingir, se encaixar. Ninguém é mais do que pessoas normais, e tentar negar isso só impede o artista de ser sincero e o público de se identificar de maneira honesta. O público da Lobos não são pessoas de “tendência x ou y”, são pessoas que conseguirem aceitar, entender e sentir o que que queremos, é um cara que queira olho no olho, cabeça erguida, que consegue se olhar no espelho, e ele sim sabe o porque ele gosta do som. Nada contra os “maria-vai-com-as-outras”, porque eles vão me ajudar a vender, mas o som não vai mudar por eles, porque meu público alvo mesmo é quem gosta do som e quer pensar por si. Assista à "69 Formas" - Single da Lobos e Chacais!


 
 
 

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